Thursday, June 05, 2008

CRESCIMENTO URBANO E BIODIVERSIDADE

Degradação ambiental além das metrópoles

Por Georgiana de Sá - Matéria exclusiva para o Jornal Ambiente Hoje (Amda)
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Poluição, rios malcheirosos e abarrotados de detritos, aglomerado de prédios e cada vez menos áreas verdes, congestionamentos e péssima qualidade do ar, lixo que causa enchentes e entope bueiros, escassez de água e energia elétrica. Essas são apenas algumas das conseqüências da industrialização desenfreada e da falta de planejamento nos grandes centros urbanos. Em sua mais recente pesquisa sobre a “Situação da População Mundial”, a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que em 2008, 3,3 bilhões dos 6,6 bilhões de seres humanos passarão a viver em áreas urbanizadas, chegando a cinco bilhões em 2030. Em se consumando o que as pesquisas indicam, assegurar a sustentabilidade ambiental e encontrar um modelo de metrópole que consiga aliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental é o desafio do século XXI.
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Bombaim - Índia

Os seis países mais povoados da Terra (China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Brasil e Paquistão) somam 3,3 bilhões de habitantes, mais da metade do total mundial. Na China, país com 1,3 bilhão de pessoas, embora só as famílias do campo e de minorias étnicas possam ter mais de um filho, a população em sua capital já ultrapassou os 17 milhões, conforme dados da agência oficial chinesa “Xinhua”. Seguindo na contramão da sustentabilidade ambiental, em Pequim, torres, shoppings e chaminés funcionam a todo vapor e milhões de carros invadem as ruas a cada ano, seguindo o padrão capitalista de consumo.


Nova Déli - Índia

A Índia é outro país que segue elevando sua taxa de natalidade. Sua população conta com mais de 1,1 bilhão de habitantes. O último relatório do governo indiano calcula que o aumento populacional deve chegar a 300 milhões nos próximos anos, elevando-se a 1,4 bilhão de pessoas até 2026. Já o Brasil, quinto mais populoso, registrou 183,9 milhões de brasileiros, segundo “Contagem da População de 2007” do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo estudos publicados pelo WWF-Brasil, a população do planeta já está consumindo 20% a mais dos recursos naturais disponíveis e seu crescimento aponta para possibilidades sombrias. Os seres humanos concentram-se nas grandes cidades e cada vez mais, perdem a capacidade de ligar seus hábitos de consumo à exploração dos recursos naturais. Suas ‘pegadas ecológicas’ (medida de impacto ambiental), estendem-se além dos limites das cidades.

De acordo com o Juiz de Direito aposentado Antônio Silveira Ribeiro dos Santos, em seu artigo intitulado ‘Áreas urbanas e biodiversidade’, a explosão demográfica dos centros urbanos atinge a biodiversidade local e ao redor por reflexo. A cidade se torna um ecossistema que se alimenta de energia externa e o impacto de sua degradação pode ser notado em ecossistemas naturais distantes como, por exemplo, florestas e rios que recebem a sua poluição ou se tornam fornecedores de recursos. O estudioso destaca, entre os fatores que colaboram para a perda da biodiversidade, o descontrolado uso do solo para edificação; os danos causados à atmosfera e a água pelos resíduos tóxicos dos automóveis e indústrias.
A superintendente Executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente – Amda, Maria Dalce Ricas, durante oficina realizada no II Congresso Mineiro de Biodiversidade, o Combio, alertou que a natureza não é eterna provedora de recursos naturais ilimitados. A superintendente disse ser necessário estabelecer prioridades entre desenvolvimento urbano e meio ambiente. “Empreendimentos econômicos de grande porte são, muitas vezes, indutores de degradações em áreas de relevância ambiental”, exemplifica.

De acordo com a ambientalista, o crescimento populacional do planeta é realmente uma bomba relógio. “Dizer, por exemplo, que as desigualdades sociais no planeta seriam resolvidas apenas com distribuição de riqueza é simplificar um problema super complexo, ignorando a relação consumo x disponibilidade de recursos x crescimento populacional”.

MORADIA E MEIO AMBIENTE
Conforme a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em 2006 foram lançadas 1.939 unidades residenciais em Belo Horizonte e 3.037 em 2007. Contudo, existem ainda as moradias inadequadas que, segundo as apurações do Observatório de Políticas Urbanas da PUC Minas, equivalem a 53% do total da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Os dados revelam que a cidade possui déficit habitacional (expressão que se refere à quantidade de cidadãos sem moradia adequada) de 53.201 unidades.

As habitações construídas em áreas de encostas de morros, ou que margeiam ribanceiras e córregos, geram problemas sociais e ambientais, tais como enchentes, deslizamentos, soterramentos e poluição hídrica. Para a professora Denise de Castro, doutora em Ciências Humanas e Sociologia e coordenadora do Núcleo Meio Ambiente e Urbanismo PROEX/PUC Minas, o crescimento urbano aleatório, ou parcialmente planejado, é ponto de partida para problemas ambientais. Ela cita como exemplo o tratamento inadequado em áreas de destinação de resíduos, tanto em atividades extrativistas (coletas de produtos de origem animal , vegetal ou mineral ), quanto na produção diária de lixo doméstico e industrial. “Resíduos sólidos e líquidos são fontes de degradação. Podem-se somar ainda, as precárias condições de vida em regiões de favelas, aglomerados, vilas e bairros que concentram populações desprovidas de saneamento urbano e de adequada atenção à saúde pública”, observa.

Casas do Aglomerado da Serra em Belo Horizonte


Belo HORIZONTE
Os problemas ambientais da ‘Cidade Jardim’
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Belo Horizonte- Santa Efigenia

Conhecida como “Cidade-Jardim”, devido ao seu clima agradável e por estar cercada pela Serra do Curral, Belo Horizonte foi planejada no final do século XIX, pelo engenheiro Aarão Reis. Seu projeto inicial separava o setor urbano do suburbano pela Avenida do Contorno. Porém, sem maior controle ou planejamento, a capital mineira se expandiu para além dos limites de seu traçado e hoje é mais uma polis inserida no preocupante contexto ambiental que atinge o resto do mundo.

De acordo com o IBGE, o total de moradores de BH passou de 2,238 milhões de pessoas, em 2000, para 2,412 milhões em 2007 (aumento de 7,8%). O antigo reino dos pomares sofre as conseqüências do crescimento populacional, que inclui o avanço acelerado da frota de veículos particulares, o aumento na poluição sonora e atmosférica e a perda de área verde, que cede espaço para ruas, avenidas e edifícios.

Na opinião do arquiteto Eduardo Guimarães Beggiato, da B&L Escritório de Arquitetura, Belo Horizonte, como outros centros urbanos, reúne muita gente num espaço em que não cabe todo mundo. “O ideal é que toda a gente se conscientize da importância de preservar, organizar e valorizar o espaço urbano”, considera. A B&L participou de projetos como o Boulevard Arrudas e do Programa de Recuperação de Fundos de Vale e Leito Natural (Drenurbs), que prevê a despoluição de 140 quilômetros de cursos de água, 73 córregos e a criação de parques.


Fundação Municipal de Parques de Belo Horizonte
Parque Municipal Aggeo Pio Sobrinho
Av. Prof. Mário Werneck. Bairro Buritis

Os parques recuperados no projeto são, comumente, espaços abandonados, ocupados por colchões e sofás na beira de córregos poluídos, e que estão sendo entregues à população. “Quando se despolui um rio, a natureza responde rapidamente. Poucos tempo depois aparecem peixes, vegetação ao redor, borboletas e pássaros”, diz Beggiato, destacando a importância de favorecer os ciclos de vida de espécies animais e vegetais para resgatar o equilíbrio ecológico do ambiente urbano.

As transformações arquitetônicas da cidade, segundo o arquiteto, devem considerar questões relacionadas ao meio ambiente. Ele conta que o Boulevard surgiu como compensação ambiental pelo fechamento do canal do Ribeirão Arrudas e implantação de pistas mais largas. “Foram plantadas mais de 600 árvores em idade adulta. Criamos uma alameda de árvores que daqui a dez ou quinze anos vai dar um retorno ainda mais visível. A árvore transforma a cidade em local de ficar, não só de passar”.

Fundação Municipal de Parques de Belo Horizonte
PARQUE 1.º DE MAIO
O presidente da Fundação Municipal de Parques de Belo Horizonte (FMPBH), Ajalmar José da Silva, explica que Belo Horizonte conta com 53 parques, distribuídos em uma área aproximada de sete milhões de metros quadrados. Para ele é fundamental assumir áreas públicas abandonadas e segurar ao máximo as áreas verdes que ainda temos. Ele considera que espaços de integração social, como praças, parques e jardins, determinam a qualidade de vida na metrópole e permitem compatibilizar carro, pedestre e espaço verde. Ajalmar cita o exemplo das praças recentemente criadas nas avenidas dos Andradas e Jose Cândido da Silveira, que foram revitalizadas e arborizadas.
Outra grande aposta do presidente é a implantação do Parque Municipal Paredão da Serra do Curral, que, para ele, será um dos parques mais freqüentados de BH. O parque já começou a ser implantado pela prefeitura e prevê a recuperação de trilhas e mirantes, criação de praça, pista de caminhada, gradis de proteção, escadas e guaritas de vigilância.

Para a coordenadora do PROEX/PUC, Denise de Castro Pereira, o governo precisa estar atento a exploração econômica da mineração e às agressões ambientais em Áreas de Proteção Ambiental (APA) situadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). “A atenção aos impactos das atividades minerárias e industriais, em geral, é tão importante quanto a vigilância aos danos resultantes do uso desordenado do espaço, como é o caso da expansão dos condomínios fechados”, diz, se referindo a ampliação de condomínios de luxos na região metropolitana de Belo Horizonte conhecida como APA Sul, que já sofre com as atividades de extração mineral.

INSUSTENTÁVEL AUTOMÓVEL
O cenário de bagunça no trânsito das grandes cidades

As manchetes dos principais jornais do Brasil e do mundo abordam o problema do trânsito nas metrópoles. Na demanda do escasso espaço público, o carro não é simplesmente um meio de transporte, representa o rito de passagem na trajetória de uma pessoa bem sucedida. É o senhor de status na escala evolutiva: bicicleta, motocicleta e automóvel. A simbologia que cerca o automóvel aquece uma indústria que movimenta bilhões de reais. Só a fábrica da Fiat em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, atualmente produz três mil carros a cada dia útil. Além disso, sua cadeia de produção envolve praticamente todos os recursos naturais disponíveis e as matérias primas deles decorrentes: combustíveis fósseis, minério, água, madeira, aço, energia. Tudo isso, garante o sucesso das indústrias de petróleo, e agora do biocombustível, substituto que está demandando a ocupação de áreas florestais, provocando desmatamentos e destruindo ainda mais a biodiversidade.

A superintendente da Amda lembra mais uma vez a relação consumo x recursos naturais x crescimento populacional. “Sob parâmetros de justiça social, todos os habitantes do planeta teriam direito a usufruir do automóvel. chineses, indianos, africanos, todos devem ter o mesmo sonho. Mas, está provado que não há recursos naturais suficientes para ‘realizar esse sonho’. por outro lado, a produção de automóveis no Brasil, por exemplo, é citada como parâmetro de desenvolvimento no país. Onde chegaremos?”, pergunta ela.

Segundo dados do Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran), a capital mineira tem 868.773 condutores para 993.351 de carros, motos, vans, ônibus, caminhões e outros modelos. De acordo, com Rogério Carvalho, assessor da Diretoria de Planejamento da Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte S/A (BHtrans), no ano passado a frota de automóveis da cidade apresentou crescimento de 8,41%. “Não há hoje no mundo nenhum centro urbano preparado para isso. Estocolmo e Cingapura estipularam taxas para os veículos que circulam no centro, São Francisco (EUA) também adotou o pedágio urbano como forma de racionalizar o uso do carro. Da mesma forma, em Londres, desde 2003, a cidade conta com essa alternativa. Mesmo cidades que conseguiram tornar eficiente o transporte público enfrentam problemas com o aumento na frota de automóveis particulares”, explica.
Foto: Georgiana de Sá
Rogério Carvalho(BHtrans)

Na tentativa de solucionar o caos no trânsito de Belo Horizonte, a prefeitura lançou em maio último, o ‘Programa de Ações de Mobilidade para 2008’, que prevê a melhoria do tráfego nas principais regiões da cidade. De acordo com o programa, serão realizadas 55 intervenções e 106 vias devem ser pavimentadas e sinalizadas. Além de desafogar o trânsito, a prefeitura pretende facilitar o transporte de passageiros com um sistema de comunicação, adequando painéis eletrônicos de informações para os usuários nos abrigos e ônibus, o que permitirá o acesso do público aos horários de chegada e saída dos coletivos, também monitorados pela Internet.

Em matéria publicada no jornal “Estado de Minas”, em 12 de maio último, o consultor Frederico Rodrigues, doutorando em engenharia de transporte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentou dados sobre o transporte público em BH e defendeu o uso do ônibus como solução para os congestionamentos. Segundo o consultor, a cidade tem 1,5 milhões de pessoas que usam ônibus diariamente e, se a este número se somassem mais 420 mil passageiros, os congestionamentos e gastos com combustíveis se reduziriam a 16%, além da queda na emissão do monóxido de carbono, que seria de 2%.

Para o assessor da BHtrans, a melhoria do transporte coletivo se torna medida mais econômica e eficaz que soluções paliativas, como pedágio urbano e rodízio de veículos, ou mesmo como a construção de pontes, viadutos, e túneis. Da mesma forma, o arquiteto Eduardo Beggiato concorda que construções de mais avenidas só tendem a aumentar a demanda de recursos. “Ainda que o espaço urbano fosse projetado só para os carros, se derrubássemos todas as árvores ou demolíssemos todos os prédios, não resolveríamos o problema no trânsito, que está diretamente ligado à relação humana no ambiente da cidade”, diz, advertindo da necessidade de mudança de padrão de consumo.



“Sou sua amiga bicicleta. Faz bem pouco tempo entrei na moda pra valer”.A mensagem do compositor Toquinho na música ‘A bicicleta’ nunca esteve tão atual. Considerada meio de transporte rápido e muito mais barato que o automóvel, promete amenizar o drama dos congestionamentos.

As bicicletas estão demarcando espaços nas ruas de várias cidades do mundo com uma articulação sustentável e integrada a outros meios de transporte. O sistema de aluguel de bicicleta de Barcelona, na Espanha, começou em 2007 com 1.500 bicicletas e 90 mil utilizadores, que pagavam 24 euros anuais pelo uso do serviço. Em 2008, a prefeitura colocou à disposição 200 bicicletas públicas para que passageiros do transporte coletivo pudessem completar caminho após o uso do metrô ou ônibus. A prefeitura de Barcelona diz que serão mais de 3.000 bicicletas espalhadas nas estações até o final do ano.

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, declarou guerra aos automóveis e lançou o programa público de ciclovias batizado de ‘Velib’ - contração de "vélo" (bicicleta) e "liberté" (liberdade) - que prevê a redução da circulação de veículos em 40% até 2020. São mais de vinte mil bicicletas públicas em vários pontos de aluguel, distribuídos ao longo da cidade em quase 300 estações. “O usuário pode pegar a bicicleta na estação, se deslocar e devolvê-la em outra estação. Existe um cartão eletrônico para retirar a bicicleta de um lugar e devolver em outro. Se o deslocamento demorar menos que meia hora, o empréstimo é gratuito. Na segunda meia hora se paga um euro, na terceira meia hora são dois euros. O aumento é progressivo para incentivar a rotatividade”, explica Humberto Guerra, analista de sistemas e apaixonado por bicicleta.

Humberto, que já circulou em Paris de bicicleta, destaca que o automóvel é pouco eficiente, gasta quase toda sua energia para transportar o próprio peso e produz cerca de 70% da poluição do ar no ambiente urbano. Para o ciclista, normalmente as pessoas tomam decisões relativas à mobilidade contando com o automóvel e não se dão conta que suas opções serão impactantes para o meio ambiente. “Escolher onde morar e estudar também pode equacionar problemas de locomoção”, aconselha.

O analista mora a um quilômetro de distância do trabalho e realiza esse trajeto caminhando, abriu mão de ter um carro e adquiriu uma bicicleta dobrável, para tentar contornar um dos grandes problemas apontados pelo ciclista, que é o fato da cidade não ter lugar seguro para deixar a bicicleta. O mineiro faz parte do cicloativismo e se dedica a ações em prol da bicicleta, participa de ações junto com a BHtrans, como no ‘Dia Sem Carro’, faz panfletagem nas ruas e tenta conscientizar as pessoas da viabilidade da bicicleta como meio de transportes para deslocamentos curtos.

O projeto ‘Pedala BH’ pretende criar ciclovias para integrar bicicleta e transporte coletivo, aproveitando locais da cidade onde a topografia é favorável. Estão previstos bicicletários para estações de ônibus e metrôs, inicialmente em Venda Nova, Barreiro e São Gabriel. De acordo com a Bhtrans, o projeto tem como meta oferecer 18 quilômetros de ciclovias, incentivar o uso de bicicleta e criar condições seguras para a circulação.

1 comment:

Isabosa Barbela said...

Excelente trabalho!
Belo Horizonte,e o mundo muito bem descritos.
Parabéns!